luciana bragança &

miguel fernandes felippe

Bom dia Miguel,

Sou a Luciana Bragança e estou na mostra Córregos Vivos.

Sou seu par.

Como você acha melhor conversar?

Atenciosamente,

Luciana

Olá Luciana, como vai?

É um prazer dialogar com você.

Confesso que estou inseguro com a dinâmica proposta, pois é a primeira vez que participo de algo nesse formato. Se você já tiver alguma

experiência, podemos seguir da forma como você julgar melhor. Caso contrário, acredito que por email será o mais fácil.

Uma dúvida que tenho é sobre o tema e o start da conversa. Quando fui convidado, me indicaram o tema "mineração e água". Porém, no

último email trocado com a organização, o tema foi direcionado para o Cercadinho.

Abraço

Bom dia Miguel,

Tudo bom?

Eu também não tenho experiência com o formato. Escrevi na esperança que você já tivesse feito algo do tipo. Então vamos assim por e-mail

mesmo.

Sobre o tema, para mim foram colocadas duas possibilidades: a minha pesquisa Jardins Possíveis onde investigo mundos possíveis

territorializados a partir dos jardins. O estudo é direcionados pela água como forma de entendimento do urbano a partir da bacia

hidrográfica. O objetivo é de vislumbrar opções para o pensamento sobre a cidade, problematizando conceitos com sustentabilidade e

desenvolvimento sustentável. Eu trabalho em três pontos da bacia do Arrudas:no Barreiro no córrego olaria e dois de seus afluentes em leito

natural, no centro/Lagoinha e no São Geraldo com o Arrudas e duas nascentes.

Outro ponto colocado foi conversar a partir minha origem Itabirana.

Quais os seus interesses?

Abraço,
Luciana

Olá Luciana,

Muito interessante seu trabalho. É um grande desafio, certamente, conciliar os ideários de "urbano" com a sustentabilidade, sobretudo com o teor ressignificado deste conceito nas últimas décadas.

Eu trabalho na interface entre geomorfologia e hidrogeografia. Meus objetos de estudo mais corriqueiros são nascentes, cabeceiras de drenagem e áreas úmidas. Por algum tempo trabalhei com nascentes em BH. Mais recentemente, me envolvi com as consequências dos rompimentos das barragens da Vale e da Samarco para os rios (água e morfologia). Desde então, o grupo de pesquisa que coordeno tem se dividido entre essas duas temáticas.

Acredito que já tenhamos começado as trocas (rs), então, se preferir, podemos incluir a organização do evento já no email. Sobre o tema, posso trazer as nascentes urbanas para a problemática da sua pesquisa. Porém, fico receoso de não ser isso o esperado pela organização.

Um plano B, seríamos iniciar a discussão no tom colocado e, em algum momento, trazermos a mineração para o urbano.

Abraço

Bom dia Miguel,

Acho que devemos sim encaminhar os e-mails à organização.

Tenho enveredado por alguns textos da geomorfologia para entender as nascentes do São Geraldo. Seria ótimo poder conversar sobre isso. Mas

entendo sua preocupação.

Se você quiser iniciar no tom colocado pela organização peço que você introduza o assunto pois eu não sei bem esse tom. Daí seguimos. Pode

ser?

Abraço,

Luciana

Prezados organizadores, como vão?

Estivemos Luciana e eu em um breve diálogo para definirmos o tom das nossas comunicações, mas estamos com dificuldade em começar.

Apresentamos-nos um ao outro e introduzimos parte dos nossos esforços que suscitaram o convite que recebemos. Todavia, temo que não estejamos sabendo como iniciar a proposta que nos foi colocada, provavelmente, por inexperiência sobre o formato.

Assim, estou escrevendo acreditando que talvez vocês possam "levantar" a primeira bola.

Desde já, agradeço

Olás,

Que bom que voce escreveu. Estamos aqui pra auxiliar.

Pensamos que seria interessante se vocês pudessem focar em trocas de imagens com relatos, descrições a partir de temas relacionados a

mineracao (ou ao que sobra depois de um desastre ou depois da instalação da indústria ou que havia antes).

Uma troca de imagens (de fotos pessoais, de arquivos, a desenhos de artistas, desenhos de projetos de engenharia) das mudanças no relevo e

paisagem dos territorios que voces dois tem em comum: zonas extrativistas minerárias.

De um lado, o corte nas montanhas de Itabira para fornecer matéria prima a indústria; de outro, com o crime da vale, a alteração da paisagem,

relevo e hidrografia das cidades.

Uma outra posibilidade é conversar trocando audios, fotos de arquivo, fotos pessoais, fotos alheias, filmes e videos sobre a relação da natureza

com territorios. Não somente a mineracao, mas a exploração da terra, do solo.

Que acham?!

Cordialmente

Louise, Ana Baltazar, Fred, Isabela

Obrigado pelos esclarecimentos.

Vou tomar a liberdade de começar.

Luciana,

Estou encaminhando uma imagem que retrata uma das situações mais insólitas que vivi academicamente. Eu já tinha tido experiências de grande

sensibilidade no sertão nordestino em 2007 (fruto de uma pesquisa sobre desenvolvimento regional) e no rio Doce em 2015 (em uma primeira

expedição de campo dez dias após o rompimento de Fundão). Ambas foram particularmente perturbadoras, mas nenhuma mexeu tanto comigo

quanto minha primeira expedição de campo com alunos da graduação no Parque da Cachoeira, em Brumadinho.

20201028parquecachoeira.JPG

Esse trabalho de campo foi da disciplina Planejamento Ambiental, do final do curso de Geografia da UFJF. Saímos de Juiz de Fora e visitamos, primeiramente, Barra Longa e Paracatu de Baixo. Os alunos tomaram conhecimento dos danos causados pela Samarco no rompimento de Fundão, conversaram com os atingidos e tiveram um primeiro choque de realidade com o desastre.

Depois, seguimos para Brumadinho. Chegamos no Parque da Cachoeira depois de muito debater no ônibus sobre o ocorrido. Apesar de minha formação em geomorfologia, como bom geógrafo, sempre tive uma abordagem social e política fortemente arraigada no meu fazer acadêmico.

Então, mais do que as alterações na morfologia fluvial, na sedimentologia e na hidrogeoquímica, debatemos sobre injustiça ambiental, racismo ambiental e a desigualdade social inerente ao capitalismo (conceitos tão bem representados pela mineração no Brasil).

Depois de caminhar por algumas ruas do bairro (pedi para os alunos não incomodarem os moradores, pois eles têm sido assediados pela imprensa e academia), chegamos na área diretamente atingida pelos rejeitos, onde uma aluna fez essa fotografia. Intuitivamente, parei com o falatório típico das aulas práticas de campo e deixei os alunos à vontade. Eles observaram bastante e caminharam ao longo do vale destruído pela lama e dos escombros das casas. Aproximadamente 500m a nossa frente, o corpo de bombeiros ainda estava procurando vítimas.

 

Meia hora depois, eles foram se reunindo próximo ao ônibus mesmo sem que eu pedisse. Vários estavam chorando, alguns, profundamente abalados. Nos abraçamos todos. Eu pedi para que entrassem no ônibus e não dei "a aula" programada para aquele ponto, onde eu ia falar de assoreamento, avulsão de canal, ambientes fluviais, hidroecologia, vegetação ripária, degradação ambiental, etc. No ônibus, a primeira coisa que consegui falar foi "desculpa". Fiquei ressentido por tê-los levado naquele local e os deixado tão abalados. Um deles então falou que eles só tinham a agradecer, pois tinham visto a realidade do que é ser geógrafo naquele momento e entendido o que iriam enfrentar com o diploma na mão.

Após minutos de silêncio total no ônibus, começamos a debater. Primeiro sobre as pessoas, depois sobre o rio, sobre a vegetação... Não foi exatamente a aula que eu planejei, mas, ao menos para mim, foi uma das maiores lições de vida que eu recebi. Voltei pro laboratório e continuo trabalhando com os rios afetados, mas certamente, agora com um olhar muito mais humano, graças à aula que eu não dei, mas que meus alunos me deram.

Abraço

Miguel,

As imagens que vou encaminhar são imagens das máquinas gigantes que compõe a paisagem mineraria. Em Itabira, esses eram os monstros da minha memória.

Enormes escavadeiras, correias transportadoras, balanças: mecanismos de poder na paisagem de cidade pequena.

Luciana

20201103maquinas03.jpeg
20201103maquinas06.jpeg
20201103maquinas01.jpeg
20201103maquinas02.jpeg
20201103maquinas04.jpeg
20201103maquinas05.jpeg

Oi Luciana,

O que mais me impressiona na escala dos processos minerários é que processos que a natureza demoraria milhões de anos para fazer, ocorrem em um piscar de olhos. É uma manifestação exemplar do Antropoceno, da capacidade humana de criar e transformar a paisagem. E olha que estou me referindo ao processo extrativo e de beneficiamento, sem falar nos grandes desastres ambientais inerentes ao fazer minerário.

Nesse sentido, vários trabalhos mostram, por exemplo, que mesmo sem "desastres" midiáticos, os cursos d'água que cortam áreas minerárias

históricas são (e estão) recorrentemente contaminados por metais pesados. Venenos invisíveis que assolam toda a população que depende das

águas fluviais.

Abraço

20201104A-fé-e-a-Vale-do-rio-Doce-remov

Olá Miguel,

Tem um ditado popular itabirano que diz: “A fé e a Vale do rio Doce removem montanhas”.

Essa remoção da montanha, mudança geológica antropocêntrica, foi acompanhada cotidianamente pela geração do meu pai.

E, não satisfeita em destruir a montanha, destrói a própria fé.

A foto em anexo é da catedral da cidade que foi posta abaixo por máquinas da Vale depois de sofrer avarias devido às explosões da mina.

Abraço,

Luciana

Oi Luciana,

Conheço os casos de amputação da paisagem em Itabira, mas não sabia desse caso da igreja, estarrecedor. Hoje (na verdade ontem, pois já passaram alguns minutos desde a meia-noite), foi lembrado os cinco anos do rompimento da barragem de Fundão. Uma das (infelizmente) várias manifestações do poder de destruição e desestruturação social que a mineração possui.

Essa foto que lhe encaminho é do remanso da UHE Risoleta Neves, no rio Doce. Sempre que revejo essa foto, me pergunto: "o que é um rio?". Para muitos, essa pergunta pode parecer retórica ou infantil; mas para mim, não é. A geomorfóloga Ro Charlton fala que um rio transporta água, sedimentos e vida... se for isso, não temos um rio na foto.

 

Se formos pensar em uma perspectiva cultural, não é isso mesmo que os rios promovem? Vida? Desde as primeiras civilizações, passando pela Mesopotâmia até os dias de hoje, os rios são sinônimo de vida... ou, ao menos, deveriam ser.

Abraço

20201106emanso da UHE Risoleta Neves.JPG